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Religião

O dinamismo da vida espiritual

auto-conhecimento: acesso à vida espiritual

Publicada em 27/09/20 às 11:01h - 346 visualizações

por Dom José Roberto Fortes Palau


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Evágrio Pôntico  (Foto: #pinterest)
“Se queres conhecer a Deus, aprende primeiramente a conhecer a ti mesmo!” (Evágrio Pôntico). Para os padres do deserto, o caminho para Deus sempre conduz ao auto conhecimento. Para conhecer a Deus é necessário conhecer a si mesmo. O caminho da vida espiritual começa nas ‘paixões da alma’. São as paixões da alma que devem ser primeiramente observadas e é com elas que se deve lutar. É somente então que se compreende algo acerca de Deus. O tratamento das paixões é o caminho para Deus. Tratamento das paixões significa seguir o penoso caminho do autoconhecimento e do encontro com nosso lado sombrio. É descendo para dentro de nossa condição terrena (húmus, humilitas) que entramos em contato com Deus. Pois, à medida que temos coragem de descer até as nossas próprias paixões, elas nos elevam até Deus. Somente o humilde que está preparado a abraçar seu húmus, sua humanidade, sua terrenidade, sua sombra, experimentará o Deus verdadeiro. A humildade é o caminho para Deus. Ela é a característica mais manifesta de que uma pessoa se transformou segundo a medida de Deus. Quanto mais próximo um homem chega de Deus, tanto mais humilde ele se torna. Pois é aí que ele sente, enquanto homem que é, o quanto está distante da santidade de Deus. A
humildade é a resposta para a experiência de Deus. Chegamos a Deus através de uma rigorosa auto-observação e por um sincero autoconhecimento. O caminho para Deus passa pelo encontro comigo mesmo, pelo rebaixamento para dentro de minha realidade. “Teu entulho seja teu pedagogo” (Doróteo de Gaza). Justamente onde nos deparamos com nossas fraquezas pessoais é que nos tornamos abertos para Deus. Deus nos educa justamente através de nossos fracassos, através de nosso entulho. O auto-suportar-se ou permanecer em si (confronto com a própria realidade) é a condição indispensável para todo progresso humano e espiritual. A árvore precisa enraizar-se para poder crescer. O transplante contínuo retarda seu crescimento.

Da mesma forma o ser humano precisa auto-suportar-se, vencer a inquietação, para chegar à maturidade. Não há homem maduro que não tenha tido a coragem de suportar-se a si mesmo e de encontrar-se com sua própria verdade. Hoje em dia, passou a ser algo por demais normal a incapacidade de suportar-se e assim saltar de um lugar para outro. As pessoas se dispersam com uma facilidade incrível. Sem serenidade interior nada mais pode amadurecer em nosso íntimo, nada mais pode crescer. A serenidade interior é condição
indispensável para todo e qualquer amadurecimento humano.

O encontro consigo mesmo é, ao mesmo tempo, o pressuposto fundamental para todo e qualquer autêntico encontro com Deus. Nossa religiosidade padece quando nos desviamos deste caminho. Em muitas pessoas piedosas percebe-se que elas querem por meio de sua religiosidade fugir da própria verdade. Elas se refugiam em pensamentos e sentimentos piedosos para não precisarem encontrar-se consigo mesmas. Essas pessoas não têm a coragem de encarar diretamente os próprios pensamentos. O caminho para Deus não passa por cima, pelo contrário, é um mergulho na realidade humana.

A REALIDADE DAS TENTAÇÕES

A vida humana é marcada por conflitos constantes. Nós não podemos simplesmente vegetar. Devemos enfrentar os ataques que a vida eventualmente nos apresentar. E nunca haverá um momento em que possamos descansar sobre os louros da vitória. As tentações haverão de nos acompanhar até o fim da vida. Pela tentação, experimentamos existencialmente nossa distância de Deus, sentimos a diferença entre a natureza humana e Deus. O ser humano permanece em luta constante, enquanto Deus repousa em si mesmo. Deus é amor absoluto,
enquanto o homem é continuamente tentado contra o amor.
A tentação é como a história que se conta a respeito de uma palmeira. Certa vez, um homem muito mau irritou-se com uma palmeira nova e bela. E, a fim de prejudicá-la, colocou uma enorme pedra sobre a sua copa. Depois de alguns anos, porém, ao passar diante dela, viu que ela se tornara bem maior e mais bonita do que todas as outras à sua volta. A pedra a forçara a lançar suas raízes ainda mais profundamente em Deus e a depositar sua confiança cada vez mais nele. Porque as tentações lhe mostram que, a partir de suas próprias forças,
ele é incapaz de dar conta delas. Os conflitos constantes tornam-no interiormente mais forte e fazem-no amadurecer como homem. A luta com as provações e tentações pertence essencialmente ao ser humano. Devemos contar com o fato de sermos tentados pelas nossas paixões. Em nosso interior há um conflito entre o bem e o mal, entre o amor e o ódio. Existem forças desconhecidas que habitam nosso inconsciente e que devem ser tratadas com todo cuidado. Colocar-se diante das tentações significa confrontar-se com a verdade do próprio ser.

Quem se familiariza com as próprias tentações encontra a verdade de seu ser e descobre os pensamentos pecaminosos, as representações sádicas e as fantasias imorais. Nós só nos tornamos seres humanos maduros quando nos confrontamos com esta verdade, quando somos experimentados por meio da tentação. A tentação obriga-nos a lutar. Porque sem luta não há vitória. Vencer, porém, jamais é mérito nosso. Precisamos fazer a experiência de que, através da luta, Cristo age em nós e, de repente, nos liberta da luta constante e nos dá uma profunda paz. Contar com a possibilidade da tentação, isto é, com a certeza de que a tentação é parte essencial do ser humano, torna-nos mais humanos, mais humildes. Mostra-nos que nós sempre somos tentados, que nunca podemos dizer que estamos acima de todas as tentações. Ou ainda: que, por exemplo, o ódio, o ciúmes e o adultério não seriam problema algum para nós. Quem afirma jamais ser capaz de enganar seu esposo ou esposa, ainda não se encontrou com seu coração. Pois é contando com a tentação que nos tornamos realmente vigilantes. Comumente as pessoas têm uma imagem falsa de santidade: pensam que o santo está acima de todas as tentações. Isso é um erro. Estar consciente das tentações sem deixar-se dominar por elas é um caminho que nos mantém vivos, um caminho que sempre de novo nos recorda que nós mesmos não podemos tornar-nos melhores, mas tão somente Deus poderá transformar-nos. Somente Deus poderá dar a vitória na luta contra as tentações.

A NECESSIDADE DE DISCIPLINA INTERIOR: ASCESE

Devemos trabalhar a nossa natureza, não estamos entregues às nossas concupiscências sem nada poder fazer. Podemos, e devemos, lutar contra tudo aquilo que nos impede de crescer na comunhão teologal. Ascese significa um exercício para a aquisição de uma prática. A ascese é, num sentido ético, um exercício para um comportamento virtuoso, conformado ao ideal. Ascese diz respeito a algo positivo, que é o exercício para adquirir uma virtude.
A finalidade da ascese cristã é algo absolutamente positivo: a aquisição do amor, isto é, da pureza de coração. Isso não se realiza em primeiro lugar pela renúncia, mas pelo amor que se adquire através da luta contra as paixões. E é nisto que se manifesta a visão positiva do ser humano. A ascese consiste, sobretudo, em tornar o corpo dócil e em subjugar as
próprias vontades, em tornar-se senhor dos instintos e livre em relação às próprias necessidades. O que não pode acontecer é a ascese transformar-se num ataque de cólera contra nós mesmos. Pois, neste caso, ela só nos prejudicaria: “Todo excesso tem origem nos demônios” (Abade Poimen).
A ascese também não deve ser praticada como se pudéssemos nos libertar a nós mesmos. Ela é, ao contrário, uma resposta ao amor divino e à sua oferta de salvação em Jesus Cristo. Para Deus poder transformar-nos, por meio de sua palavra e seu Espírito, faz-se necessário entregar-nos a ele, libertar-nos de tudo o que nos incomoda, nos fecha e nos domina interiormente. Mas é Deus somente quem pode realizar a salvação. Podemos através do trabalho ascético predispor-nos à libertação, mas em princípio não podemos tornar-nos melhores a partir de nossas próprias forças. Somente Deus é capaz de realizar isso.
Somente Deus pode conceder-nos paz verdadeira e amor perpétuo. Somente Deus pode conceder-nos o estado de ‘apatheia’: estado de paz interior em que estamos abertos para Deus. Ascese é querer bem a si mesmo. É optar por tudo aquilo que me faz crescer como pessoa. A obrigação de crescer como pessoa (maturidade) não é algo opcional, mas uma obrigação de todo ser humano. O que seremos no fim de nossa vida é obra nossa.

Apatheia: controle de nossas emoções

O resultado da ascese é a apatheia: a paz interior. É prestar atenção às paixões do próprio coração, conhecê-las e tratá-las adequadamente. Somente o homem que alcança a apatheia é capaz de amar realmente. Porque, na realidade, a apatheia é amor. Para chegar à apatheia devemos observar atentamente nossos pensamentos e sentimentos. O conhecimento exato das emoções e das paixões é a condição prévia para podermos lidar adequadamente com eles. Dito em linguagem psicológica, podemos dizer: apatheia é um modo maduro de lidar
com minhas emoções, um relacionamento equilibrado com minhas paixões, um modo de estar em paz comigo mesmo, com minha totalidade. Os padres do deserto tornaram-se muito familiares dos pensamentos e sentimentos negativos e das paixões da alma. Em seus escritos falam da experiência com as paixões do coração e com as forças do inconsciente. Vamos usar a experiência de 'Evágrio Pôntico'.

Evágrio elenca nove vícios que podem atrapalhar nossa vida espiritual: gula, luxúria, ganância, tristeza, cólera, acídia, ambição, inveja e soberba. 

Gula (cobiça da comida). Uma das finalidades do comer é saborear a comida. Muitas pessoas se empanturram de comida porque não admitem experimentar sua própria raiva. O comer, portanto, pode tornar-se também uma compensação prazerosa. É justamente no comer que muitas pessoas mostram
que devoram a comida, mas são incapazes de realmente saboreá-la. A verdadeira ascese consiste em aprender a saborear, comer com moderação. 

Luxúria (cobiça do corpo). A ira e a desilusão podem ser tapadas com comida. Na sexualidade a pessoa pode refugiar-se na fantasia sexual, especialmente na auto-satisfação sexual. E, então, a sexualidade é vista apenas como satisfação do desejo e não como expressão de um amor capaz de entregar-se íntima e totalmente ao outro.

Ganância (cobiça de posses). A ambição de possuir é própria do ser humano. Nesta aspiração encontra-se a ânsia por tranquilidade. O que esperamos das posses que possuímos é não ter mais nenhuma preocupação e poder assim abandonar-nos tranquilamente à vida. Porém, a experiência mostra que as posses também podem nos possuir, que somos possuídos pela nossa aspiração de possuir sempre mais.

Tristeza sobrevém, habitualmente, quando não realizamos nossos desejos. Às vezes ela vem acompanhada de cólera. O ser humano refugia-se na autocompaixão quando não consegue satisfazer seus desejos. Para Evágrio, a tristeza consiste, sobretudo, na dependência infrutífera do passado. É possível aprender muito do passado para o momento presente. No entanto, se o passado se torna fuga de conflito presente, então ele se torna um obstáculo que nos impede de assumir as tarefas atuais e através delas amadurecer. A tristeza é a reação passiva aos desejos insatisfeitos. 

Cólera é a reação ativa aos desejos insatisfeitos. É a mais forte das paixões. Às vezes, ela dura mais tempo e se transforma em ressentimento. A cólera é a agressão incontrolada: a pessoa sendo incapaz de pensar com clareza é dominada por ela. A cólera atrapalha a oração. É capaz de conduzir até a falta de apetite e determinar os sonhos, de modo a tornar o inconsciente sempre mais negativo. A cólera é também capaz de tornar a pessoa doente. Na cólera a pessoa não consegue distanciar-se daquilo que a feriu. A pessoa dá tanto poder à
cólera que esta é capaz de persegui-la por toda parte, seja em sua oração, seja em suas refeições, seja em seus sonhos. Assim, esteja onde estiver, a pessoa não está livre da cólera. É uma espécie de ‘possessão’. No dizer de Evágrio Pôntico, o demônio da cólera devora a alma humana. Hoje em dia, encontramos uma confirmação disso na psicologia que parte do princípio de que o câncer não raramente Possui uma causa psíquica. Quando continuamente engolimos todas as raivas, em algum momento o corpo reage e, no sentido mais verdadeiro e real da palavra, ele será ‘carcomido’.

Acídia é a incapacidade de fazer-se presente no momento atual. Não se tem apetite nem para o trabalho nem para a oração. A acídia é uma expressão da fuga da realidade. Não se aceita encarar a própria realidade. Por isso é necessário estar com os pensamentos num outro lugar ou então estar fazendo algo diferente. É também chamada de ‘demônio do meio dia’, porque costuma manifestar-se nesta hora do dia. Mas isto pode ser compreendido também simbolicamente e, neste caso, a acídia é sobretudo o demônio da meia idade. Na
meia idade perde-se o prazer pelo costumeiro. Então a pessoa se pergunta: para quê tudo isso? Tudo quanto a pessoa produziu até então, parece-lhe aborrecedor e vazio. E também não consegue detectar com o que deva ocupar-se. E assim, fica simplesmente ao léu, torna-se cínica e se sente capaz de criticar tudo e a todos. Mas já não tem prazer para mais nada. Entretanto, a acídia é também um desafio para a pessoa orientar-se de uma maneira nova, de descobrir novos valores que dêem um novo sentido à segunda etapa da vida.

Ambição: consiste no contínuo vangloriar-se diante dos outros. Tudo é feito unicamente para ser visto por outras pessoas. Na ambição eu penso continuamente nas pessoas e em suas opiniões. E acabo me perguntando: Como será meu modo de agir sobre elas? Elas também acham bom o que eu faço? E assim eu acabo não estando comigo mesmo e torno-me dependente do juízo das outras pessoas. O que fico imaginando é: como, em minha próxima aparição no palco, causar a melhor impressão possível, para ser devidamente aplaudido? Naturalmente nos faz bem quando somos reconhecidos e confirmados. Não se
trata de nos livrar completamente dessa busca de reconhecimento, mas de relativizá-la de maneira a não nos tornarmos dependentes dela. Nós mesmos sentimos como é desagradável quando, por exemplo, aos sessenta ou setenta anos, ainda prestamos atenção ao que os outros pensam e esperam de nós. Isso não é viver, mas tão somente ser vivido.

Inveja: mostra-se na contínua comparação com os outros. Não sou capaz de encontrar-me com nenhuma outra pessoa sem comparar-me com ela. Imediatamente, começo a avaliar, a valorizar, a desvalorizar e a revalorizar. De um modo geral, procuro desvalorizar o outro no intuito de revalorizar-me a mim mesmo. Também na inveja eu não estou comigo, não estou satisfeito comigo mesmo e não tenho nenhum sentimento por minha dignidade, reconhecendo meu valor somente em comparação com os outros. Isso é por demais cansativo e me força a ter de superar os outros ou me lanço na depressão, porque não vejo
mais nenhuma chance de poder acompanhar os outros.

Soberba. O soberbo se identificou a tal ponto com sua imagem ideal, que se recusa a encarar a própria realidade. A pessoa se envaidece de ideais e representações que, de fato, não lhe pertencem. Fica cega à própria realidade. Jesus cura o cego de nascença cuspindo no chão e esfregando-lhe a lama carinhosamente nos olhos, como querendo dizer-lhe: ‘Tu também foste tirado da terra. Reconcilia-te também com a sujeira que está em ti e em teus lados sombrios. Sê humano, pois então poderás ver novamente. Porque, enquanto negares tua condição terrena, também não serás capaz de ver’. 

Para cada tipo de vício, Evágrio aconselha um método próprio de tratamento.



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